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| MARCELO PASSAMAI E O ZÉ MANÉ |
Finalmente, a Travessia ...se fez
Lélia Pereira da Silva Nunes (*)
Travessias – Encontro de Escritores Atlânticos aconteceu nas cidades de Florianópolis, e Porto Alegre, de 27 de outubro a 2 de novembro. O encontro sonhado interligou realidades históricas e culturais, aproximando vozes açorianas do arquipélago de outras vozes, nascidas na margem de cá do Atlântico Sul, que têm nas tradições de seu povo, no imaginário ilhéu, na insularidade e no mar circundante a fonte de sua inspiração. (...)
(...)Por cá estiveram Eduíno de Jesus, poeta e decano do grupo, que fez uma leitura transversal da história, falou da transição da vida literária açoriana desde Gaspar Fructuoso com Saudades da Terra, à modernidade, situando os autores que marcaram este caminho até o século XX, com Vitorino Nemésio; Vamberto Freitas, cuja obra vultuosa o coloca entre os mais considerados escritores no ensaio e na crítica, mostrou com muita propriedade o Sistema Literário Açoriano, a partir de uma literatura praticada no arquipélago e que faz parte de um macro-sistema. Estabeleceu reflexões e ligação entre a literatura Açoriana e Portuguesa, sem esquecer a produzida pelos luso-descendentes. Desenhou de forma clara e competente o painel dos escritores açorianos, componentes do reconhecido Sistema Literário Açoriano; Álamo Oliveira, Adelaide Freitas e Ivo Machado, na poesia e no romance, falaram de suas realidades insulares, das diferenças, das semelhanças, de imagens guardadas na memória dos sentimentos, do realismo mítico; Carlos Tomé, jornalista e cronista, trouxe à tona o meritório papel desempenhado pelos suplementos literários, a trajectória dos jornais açorianos, o jornalismo cultural e as potencialidades da RTP-Açores como ponte de difusão da cultura açoriana; Joel Neto completou o diálogo com uma admirável fala onde revelou as responsabilidades e influências na escrita da nova geração, sendo ele considerado, por muitos, como um dos paradigmas do rejuvenescimento da literatura açoriana.
Poetas, romancistas, contistas, cronistas, ensaístas das duas margens se encontraram e entre descobertas suas vozes se uniram como um coro a ecoar forte do meio do mar, do espaço telúrico, do tempo de antanho e de agora.
Tão pouco tempo e tanto para dizer, contar e mostrar...como a exposição fotográfica “Florianópolis e Açores, um olhar colorido de poesia” de Marcus Quint e Marcelo Passamai, cuja magia das Ilhas e seu quotidiano singular surpreendeu os de cá e os de lá.(...)
(...)Uma herança que foi percebida no deambular despreocupado pelo Mercado Público, pelas ruas de Florianópolis, de Santo António de Lisboa, do Ribeirão da Ilha e da Lagoa da Conceição com seu casario e cenários de encantos. Ou, ainda, lá no Pântano do Sul diante daquele marzão azul, no aconchego do bar do Arante, entre paredes forradas de bilhetes do mundo onde deixaram suas mensagens, surpresos e surpreendidos com a volta do tempo e, emocionados, compreenderam a afirmação da identidade desta Ilha e de sua gente, com suas práticas colectivas, ritos, tradições açorianas e a façanha de sua sobrevivência no perpassar das gerações – “nós não somos vocês, vocês é que estão dentro de nós.”
Sem sombra de dúvida, o Encontro de Escritores Atlânticos constituiu um momento único ou pioneiro – de partida para novas aproximações, sabe-se que, daqui para a frente, o diálogo aberto falará de vivências, sobrevivências, criação, difusão cultural e realidades, embalado pela Travessia empreitada em plena primavera catarinense e outono açoriano.
Agora, é só esperar... a terra fecunda recebeu a boa semente, que venham às flores e frutos e um novo ciclo terá início pelos caminhos do mar.
Caminhos que foram abertos como veias, por onde deve fluir o sangue da sabedoria, da criação, da esperança do Amanhã.
(*) Presidente da Fundação Cultural Aníbal Nunes Pires
Escrito por M. Passamai às 21h43
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