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| MARCELO PASSAMAI E O ZÉ MANÉ |
UM ÚLTIMO POEMA MEU!!!
Olho minhas mãos machucadas
E não entendo…
Nunca fui um trabalhador braçal...
Desses que sol a sol estão na lavoura...
Na estiva...
Na construção ou nas ruas em alguma obra pública...
Olho minhas mãos machucadas
E no seu descascar de pele
Sinto que o trabalho que as tem machucado
É de tanto esfregá-las uma na outra
É a impaciência com as horas que se arrastam
É a saudade da mulher que amo
É a impossibilidade de abraçar meu filho
É a distancia que me separa do meu enteado
Ah! Se a poesia pudesse aliviar a dor dessas fissuras!
Mas ela é a madona das verdades
E ajuda a revelar aos olhos alheios o que a boca não desenha.
Olho minhas mãos machucadas
E é com elas que acaricio a quem amo
É com elas que devo buscar escrever uma nova história
Enquanto nelas tiver força
Olho minhas mãos
E me machuco
Porque vejo que o tempo determina o destino
E não percebemos
Que as mãos protegem o coração e a alma!
Escrito por M. Passamai às 15h39
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Torrão Natal
Poema de Frank X. Gaspar
(Traduções de Vamberto Freitas)
Minha mãe nunca varria à noite, //nunca nos deixava varrer. //O ruge-ruge da vassoura, //dizia ela, acordaria os mortos. //Aqui está uma dança para te fazer tremer
no chão gasto da cozinha. //Uma vez vi-a chorar de raiva e dor, //A derramar gasolina de isqueiro, //como uma ribeira de mijo, vazando //a vida no chão. Vou queimar//esta maldita casa. Não viemos //da nossa terra para agora vivermos assim //Falávamos não de nós, mas dos velhos, //Daquele pobre barco do Pico. //O meu padastro sem conseguir acalmá-la //caía na sua própria raiva, dando-se conta de //que também tinha sido vencido. Pregou-lhe uma canelada //e recusou-se chorar como chorávamos. //Era uma casa clamando pelos seus próprios fantasmas. //Um dia aprendemos a deitarmo-nos //com a cabeça presa entre mãos, //recordando os seus velhos nomes, //o pó frio do chão na cara, //para lembrar esse torrão-natal que apenas conhecíamos //das histórias. As vozes dos mortos //nunca são aquilo que esperamos, trovão distante //nos montes baixos, o uivar do cão //ao longe, silêncio. //E este torrão-natal é um lugar qualquer que //tenhamos de abandonar. As vozes //implorando o nosso regresso são ilusórias. //Agora já viajei até ao fim do mundo, temendo os mortos. //Eles insistem ainda em falar através de mim.
Escrito por M. Passamai às 15h34
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Ainda sobre a discussão da Cultura Açoriana, publico abaixo o texto do escritor açoriano Vamberto Freitas sobre as colocações "de puro desconhecimento" do catarinense Fábio Brüggemann. Entendo que está na hora da aristocracia intelectual de Santa Catarina deixar de achar que sabe tudo e abrir as suas "nem tanto brilhantes cabeças" para o novo e para o qlue realmente vale, que é a cultura e as raízes. Obrigado Vamberto, continue assim, sempre guardião do que é de direito literatura e arte.
"Caro Fábio Bruggemann,
Mão amiga fez chegar aqui a sua coluna "Muito mais do que folclore", publicada a 5 de Novembro no Diário Catarinense. Como estive aí recentemente integrado num grupo de escritores, professores, jornalistas e outros intelectuais açorianos, onde participámos em Travessias: Encontro de Escritores Atlânticos, gostaria de muito brevemente fornecer-lhe alguma informação em volta da Literatura Açoriana. Da Catarinense não falo, pois não tenho a mínima qualificação para dela me ocupar, ou sequer da colonização e desenvolvimento cultural desse estado, ou do seu vizinho Rio Grande do Sul. Entretanto, no dizer antigo da nossa língua, "Onde há fumo há fogo". Nós aqui nos Açores debatemos vivamente durante décadas a existência ou não de uma literatura própria nossa. Que sim e que não, segundo uns e outros. O facto é que hoje já poucos contestam a existência dessa literatura autónoma mas integrada na Literatura Portuguesa. Produzimos dezenas de textos teóricos (hoje reunidos em gordos volumes de ensaios) na defesa temática e estética dessa nossa literatura. Partimos do princípio de que um povo com mais de 500 anos de história e para sempre "separado" da Mãe-Pátria pelo mar só poderia desenvolver um modus vivendi muito próprio, alimentar uma memória colectiva profundamente delineada por essa separação, e ainda mais pelo contacto que viria a ter com outras partes do mundo, em que o Brasil foi sempre uma influência e um imaginário muito poderoso, tal como a América do Norte passaria a ser a partir de meados do século XIX. Os detractores da Literatura Açoriana não produziram um único - repito, único! - texto teórico fundamentado a defender as suas posições, digamos, de patriotismo literário. Hoje, alguns deles contentam-se em chamar a nossa literatura de "Literatura Portuguesa de Expressão Açoriana". E porque não Literatura Açoriana? Se os norte-americanos, tão imitados em todo o resto, não têm qualquer problema em denominar muitas das suas literaturas com designações próprias, tal como "Literatura Afro-Americana", "Literatura de Imigração", ou, ainda mais radicalmente, "Literatura Sulista". E com a nossa designação, nada mais queremos dizer ou sustentar do que isto: trata-se de uma literatura com coordenadas temáticas e estéticas muito próprias devido à historicidade atlântica a que foi e estará sempre sujeita. Consequentemente, qualquer autor não-açoriano, pode e estará incluído na nossa literatura por qualquer um dos seus livros que se integre neste corpo literário. Exemplo: Raul Brandão com o seu (para nós) fundamental "As Ilhas Desconhecidas", livro de viagens de um continental que influenciaria toda uma geração de escritores açorianos.
De resto, se lhe interessar, posso-lhe enviar alguns desses textos e/ou livros de ensaios que tudo isto enraizaram na grande Tradição literária e cultural açorianas. Nem aos nossos compatriotas continentais passaria pela cabeça referir-se à nossa literatura e cultura a não ser com o seu nome próprio. Existem, portanto, muito ao contrário do que você sustenta tão taxativamente na sua coluna de reflexão, que me parece sincera sobre todo este assunto. O que para nós nunca implicaria uma hierarquia estética de superioridade/inferioridade. Alguns dos romances e poesia canónica portuguesa do século XX são precisamente de autores açorianos, como Vitorino Nemésio e, só por exemplo, Eduíno de Jesus. Para já não falar de um Antero de Quental (natural de S. Miguel), figura primeira da poesia e cultura portuguesa do século XIX.
Com os meus cumprimentos,
Vamberto Freitas"
Escrito por M. Passamai às 12h37
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